sábado, 14 de novembro de 2009

==============Capitulo 2 - Ataque============

A lembrança que mais se insinua pelos meandros de minha velha razão vacilante é a da sensação de pânico que experimentei naquela terrível escuridão. O frio também ainda é bem nítido em minha memória; aquele maldito frio de Dezembro em que uma garo-a pegajosa desabava do céu furioso como uma saliva aziaga que se incrustava nas roupas, na pele, em tudo.

Ah, como ainda me causam arrepios aqueles clarões na madrugada! E como me arrependo de não ter dado mais atenção aos sons que deles vinham reverberando pelas matas como sinais de perigo. E não digo sons de coisas maquinais, pois estas estavam silentes naquele momento; refiro-me, sim, aos lamentos humanos que brotavam e ecoavam do horizonte negro; e ainda a um terrível som de algo muito grave que retumbava como trovão pela noite. Mas a isso não dei importância, pois apenas o visual me hipnotizava.

No entanto, ao me aproximar, depois que comecei a ver vultos de pessoas nervosas que corriam e se apertavam em torno de um círculo no meio da estrada deserta e escura, tudo o que vi ao longe perdeu toda a importância e os sons e as novas visões dali em diante é que dominaram e modificaram para sempre este velho relator.

Estando eu mais próximo agora do grupo de pessoas, já podia ouvir melhor os sons desesperados e estupefatos que provinham de suas bocas entreabertas. Elas gritavam e se lamentavam no escuro para algo que parecia estar no chão, no meio do asfalto, ou em algum ponto da margem esquerda da estrada.

Por entre pernas iluminadas pelos reflexos das luzes das sirenes de inúmeras viaturas estacionadas por todo o terreno, e pelas luzes de dezenas de lanternas faiscando e formando raios brancos em contraste com a poeira da noite, eu pude divisar um vulto escuro que se agachava e variava de posição conforme a multidão parecia se insinuar para ele. Algo que me pareceu estar tentando desesperadamente se esquivar da proximidade daquelas dúzias de homens e mulheres.

A primeira impressão, de um acidente de automóvel, não mais podia resistir aos novos fatos que se descortinavam diante de meus olhos. Sem dúvida não havia carros avariados em parte alguma. Todos que ali existiam estavam de prontidão e, agora, eu podia avistar homens com armas em riste em direção ao chão; homens da polícia. Havia também vários civis com rifles, e até mesmo mulheres que por ali estavam apontando armas em direção a alguma coisa que se arrastava inquieta ao nível do solo.

Ao meu lado um novo carro estacionou de repente quase atingindo a traseira de minha bicicleta e dele saltou uma mulher muito abalada e chorosa seguida de um homem alto e magro aparentando andar entre os 50 anos ou mais.

"Espere Hannah!" Gritou o homem passando bem ao meu lado. Por um instante nossos olhos se encontraram e os dele me transmitiram um terror tão real e palpável que todos os pelos de meus braços se eriçaram imediatamente. "Não é ela! Não é ela!" Repetia o homem. A mulher, já bem a diante, não mais se conteve e desatou a gritar quando, avançando furiosa sobre a multidão, avistou seja lá o que fosse jogado ao chão da estrada.

Aqui tenho que parar um pouco. Meus nervos não permitem mais que continue pois me veio, agora com cores ainda mais nítidas, uma lembrança que o trauma se havia encarregado de apagar parcialmente de minha memória. A lembrança da multidão armada dando passagem para a mulher de meia idade, como se num movimento em câmara lenta, e seus gritos desesperados na madrugada escura e fria:

"Oh, meu Deus! Tirem esta coisa de cima de minha filha! Não a deixem cravar-lhe os dentes desse jeito! Por Deus, ajudem!"

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